Durante o ENAVSEG 2025 – Encontro Nacional de Aviação de Segurança Pública, o médico e gestor Dr. Bruno Quercia Barros, diretor técnico do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de Santa Catarina, apresentou uma palestra que foi além da exposição institucional. Com profundidade técnica e exemplos reais, o palestrante abordou um dos temas mais sensíveis e estratégicos da aviação de segurança pública contemporânea: a interação e a integração entre saúde e aviação nas operações aeromédicas.

Assista ao vídeo da palestra no final deste artigo.

Santa Catarina adota um modelo singular no cenário nacional, considerado ao mesmo tempo peculiar e desafiador, por envolver múltiplas instituições com naturezas administrativas distintas — Secretaria de Estado da Saúde, Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros Militar — atuando de forma conjunta no resgate e transporte aeromédico. Segundo o palestrante, o êxito desse modelo depende menos da estrutura isolada e mais da capacidade de integração real entre pessoas, processos e culturas organizacionais.


Um modelo de gestão aeromédica singular no Brasil

Diferentemente da maioria dos estados brasileiros, onde o SAMU é gerido por consórcios municipais ou regionais, em Santa Catarina a gestão do Suporte Avançado à Vida é estadual, sob responsabilidade direta da Secretaria de Estado da Saúde. Essa característica decorre da própria prerrogativa legal do suporte aeromédico, que é, por definição, suporte avançado, exigindo médico e enfermeiro a bordo.

Desde 2022, a FAHECE/SC passou a gerenciar as Unidades de Suporte Avançado, ampliando posteriormente sua atuação para a gestão de operações aeromédicas, em parceria com unidades de aviação de segurança pública. Atualmente, o estado conta com sete unidades de suporte aéreo, atendendo uma população de aproximadamente 8,5 milhões de habitantes.

Um dado de destaque apresentado na palestra chama a atenção no cenário nacional: das 20 unidades aeromédicas do SAMU qualificadas pelo Ministério da Saúde no Brasil, sete estão em Santa Catarina, o que representa cerca de um terço da capacidade nacional concentrada em um único estado.


Integração institucional: Polícia Militar, Polícia Civil e Bombeiros

O serviço aeromédico catarinense opera a partir de uma sólida rede de cooperação entre instituições:

  • Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), por meio do Batalhão de Aviação da PM (BAPM), com a aeronave Águia 4 (AS350 B2) sediada em Lages, formalmente integrada ao SAMU desde julho de 2024.
  • Polícia Civil de Santa Catarina, através do SAER, com aeronaves operando em Chapecó (fronteira oeste) e Criciúma (sul do estado).
  • Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, por intermédio do Batalhão de Operações Aéreas (BOA), parceiro do SAMU há mais de 15 anos, com bases em Florianópolis, Blumenau e Joaçaba, operando aeronaves de asa rotativa e asa fixa.

Esse arranjo demonstra que integração não significa perda de identidade institucional, mas sim respeito às competências, responsabilidades e limites de cada órgão, com foco em um objetivo comum: o paciente.


Interação x Integração: conceitos que salvam vidas

Um dos pontos centrais da palestra foi a distinção clara entre interação e integração, conceitos frequentemente confundidos nas operações conjuntas.

  • Interação refere-se à troca de informações, conhecimento mútuo e comunicação entre os integrantes da equipe multidisciplinar.
  • Integração vai além: é a união coordenada de esforços, em que diferentes instituições e profissionais atuam como partes interdependentes de um mesmo sistema.

O Dr. Bruno utilizou uma analogia precisa com o corpo humano: assim como coração e pulmões têm funções distintas, mas indispensáveis à vida, saúde e aviação não substituem uma à outra, mas se complementam. Sem integração, o sistema perde eficiência e aumenta riscos.


Segurança operacional: equipe e paciente no centro da decisão

A palestra destacou que a segurança operacional nas operações aeromédicas transcende o conceito tradicional de “segurança de voo”. Ela envolve:

  • a segurança do piloto, frente às variáveis do meio, da máquina e do fator humano;
  • o papel fundamental do operador aerotático/tripulante operacional, descrito como o “anjo da guarda da equipe”;
  • a atuação ativa da equipe de saúde, que deixou de ser vista como passageira para assumir responsabilidade direta na segurança operacional, observando obstáculos e riscos na zona quente; e
  • de forma igualmente relevante, a segurança do paciente.

No contexto aeromédico, decisões operacionais não podem ser tomadas apenas com base em tempo e distância. O palestrante ilustrou essa afirmação com um caso real envolvendo o transporte simultâneo de dois recém-nascidos em incubadoras, onde a solução mais rápida não seria, necessariamente, a mais segura. A decisão correta exigiu duas aeronaves, preservando a integridade térmica e clínica dos pacientes.


Critérios de acionamento e responsabilidades institucionais

Outro ponto de grande interesse do público foi a explicação dos critérios para acionamento do resgate aéreo, que incluem:

  • gravidade ou potencial gravidade do paciente;
  • tempo e distância de deslocamento terrestre;
  • dificuldade de acesso;
  • ausência de outros recursos disponíveis; e
  • situações excepcionais, como desastres e catástrofes.

Quanto às competências, ficou claro que:

  • as unidades de segurança pública são responsáveis pela aeronave, tripulação, manutenção e logística;
  • a saúde responde pela equipe médica, insumos e materiais de suporte avançado;
  • a operação é sustentada por termos de cooperação técnica e financiamento compartilhado, com apoio do Ministério da Saúde, sem cobrir integralmente os custos.

Conclusão: mais que especialistas, equipes integradas

Encerrando a palestra, o Dr. Bruno reforçou que uma sala cheia de especialistas não forma, necessariamente, uma equipe especializada, se não houver interação e integração reais. Citando referências da medicina aeroespacial brasileira, destacou que a aviação alcança maiores níveis de segurança quando caminha ao lado da ciência, da gestão e do respeito mútuo entre profissionais.

A experiência de Santa Catarina demonstra que operações aeromédicas eficazes são construídas com confiança, comunicação, cultura organizacional e foco absoluto na vida humana — valores que servem de referência para todo o país.