Aeronaves Remotamente Pilotadas na Segurança Pública: Técnica, Doutrina e Resultados Operacionais no Paraná
23 de fevereiro de 2026
5min de leitura
O emprego de Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARP/RPAS) deixou de ser um recurso experimental para se consolidar como um dos principais multiplicadores de força da segurança pública brasileira. Mais do que tecnologia embarcada, o sucesso das operações com drones depende de doutrina, método, integração e interpretação correta dos sensores, especialmente da câmera termal.
Esses princípios foram apresentados de forma prática e detalhada pelo palestrante Roberto Aparecido Conceição, do 2º Comando Regional da Polícia Militar do Paraná (CRPM Londrina), durante palestra técnica voltada à comunidade de aviação de segurança pública. Operador de drones há nove anos, com sólida formação acadêmica e experiência operacional em unidades como ROTAM e Choque, o policial compartilhou casos reais, técnicas aplicadas e lições aprendidas em operações de alto risco, buscas, resgates e ações de inteligência.
Assista ao vídeo da palestra no final deste artigo.
Projeto Falcão e a consolidação do drone como ferramenta estratégica
Desde agosto de 2023, com a implantação do Projeto Falcão, a PMPR passou a dotar cada CRPM de aeronaves remotamente pilotadas de grande porte, como o DJI Matrice 300 RTK, equipadas com câmera térmica H20N, zoom óptico, farol de busca e alto-falante.
No 2º CRPM, sediado em Londrina, a equipe cobre 26 municípios, operando com uma estrutura móvel dedicada: caminhonete L200 exclusiva, gerador de energia, baterias, tenda, televisor para acompanhamento da operação, comunicação via satélite (Starlink) e logística para atuação ininterrupta, 24 horas por dia.
Segundo o palestrante, o diferencial não está apenas na aeronave, mas na capacidade de montar rapidamente um posto de comando avançado, garantindo consciência situacional completa para as equipes em solo e para os comandantes da operação.
A importância do farol de busca em operações noturnas
Um dos pontos mais enfatizados na palestra foi o papel decisivo do farol de busca acoplado à aeronave. Na visão do operador, em buscas noturnas em áreas de mata, o farol representa “50% do sucesso da ocorrência”.
A câmera termal identifica radiação infravermelha, mas não distingue com precisão se o ponto de calor corresponde a uma pessoa, animal, poça d’água aquecida ou vegetação. O uso combinado de câmera térmica, câmera zoom, ajuste de paletas de cor, e iluminação direcionada permite a interpretação correta da imagem, evitando decisões erradas e deslocamentos desnecessários de equipes para pontos falsos.
Como destacado na palestra, após sucessivas indicações equivocadas, a confiança das equipes em solo se perde — e a operação colapsa. O método, portanto, é tão importante quanto o sensor.
Estudo de caso: cerco e acompanhamento de quadrilha armada em área de mata
O ponto central da apresentação foi um estudo de caso completo envolvendo uma quadrilha especializada em roubos de carga, conhecida como “piratas do asfalto”, que atuava na região de Londrina e Açaí (PR).
Após acompanhamento veicular, quatro indivíduos armados abandonaram uma caminhonete e se embrenharam em área de mata fechada. A partir desse momento, a operação passou a se basear em três pilares:
Cerco bem definido – impedindo a evasão dos suspeitos;
Emprego imediato do drone – para manter os indivíduos contidos na mata;
Negação do combate noturno em solo – preservando a segurança das equipes.
O drone iniciou operação às 18h30 e permaneceu em voo quase ininterrupto até o amanhecer, com trocas de bateria e uso de técnicas como discrete mode, afastamento estratégico da aeronave e simulação de retirada para induzir o deslocamento dos alvos.
Sempre que os suspeitos tentavam sair da mata em direção à estrada, o drone avançava com o farol ligado, forçando o recuo. Dessa forma, os indivíduos foram mantidos contidos durante toda a madrugada, até a chegada do COE e a retomada da operação diurna.
O desfecho ocorreu após confronto armado, com os quatro criminosos neutralizados. Nenhum policial ficou ferido.
Limitações técnicas e desafios enfrentados
A palestra também trouxe uma análise honesta das dificuldades operacionais, entre elas:
superaquecimento e ciclagem limitada das baterias em operações longas;
dependência de comunicação (rádio e internet) em áreas remotas;
necessidade de aeronaves de apoio para manter pressão psicológica quando o drone principal precisa recarregar;
risco extremo de entrada descoordenada de equipes em área de mata sem comunicação clara.
Em um segundo caso apresentado, a falta de integração entre equipes quase resultou em confronto entre policiais, evidenciando que o drone amplia a visão aérea, mas não substitui comando, coordenação e disciplina tática.
Drones além do confronto: inteligência, resgate e salvamento
Além das operações policiais de alto risco, o paletrante apresentou diversos exemplos do emprego de RPAS em:
buscas por idosos e crianças desaparecidas em áreas rurais e de mata;
resgates noturnos com drones de médio porte e Mavic 3T;
localização de corpos em rios e lagos, inclusive dias após o afogamento;
apoio a mergulhadores, com identificação da posição pela respiração;
vigilância prolongada para investigações de tráfico de drogas e roubo de cargas;
acompanhamento discreto de alvos e cumprimento de mandados; e
integração com helicópteros em operações conjuntas.
Esses casos reforçam que o drone não é apenas ferramenta de reação, mas também de inteligência, prevenção e salvamento de vidas.
Doutrina, equipe e integração com a aviação tripulada
Segundo o operador, a composição ideal de uma equipe de drone (HARPI) envolve três integrantes:
piloto remoto,
observador,
segurança.
Esse modelo permite revezamento, maior atenção à interpretação das imagens e segurança do equipamento — especialmente em operações prolongadas.
Outro ponto destacado foi a integração com aeronaves tripuladas. Em situações específicas, o drone mantém o contato inicial e orienta a aeronave de asas rotativas até o momento seguro de transição, quando então é recolhido para evitar conflito de tráfego e ruído excessivo.
Conclusão: tecnologia exige método
A palestra do Cabo PMPR Roberto deixa uma mensagem clara para a comunidade de aviação de segurança pública: operar drones não é apenas voar. Exige conhecimento técnico, leitura de imagens termais, compreensão do comportamento humano, integração com equipes em solo e respeito aos limites do equipamento.
Quando bem empregados, os RPAS reduzem riscos, aumentam a eficiência operacional e salvam vidas — tanto de civis quanto de policiais.
A aviação de segurança pública do futuro é, inevitavelmente, integrada, multimodal e orientada por dados. E o drone, quando operado com método e doutrina, é parte essencial desse cenário.
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