Acre – Na vastidão da Floresta Amazônica, entre rios extensos e comunidades isoladas, duas operações de resgate realizadas nesta semana marcaram um capítulo histórico na resposta do governo do Acre a emergências no interior do estado. As ações reforçaram a integração entre as áreas da Saúde e da Segurança Pública, evidenciando que, mesmo diante dos desafios impostos pela geografia e pelo clima, a preservação da vida permanece como prioridade.

Resgate aeromédico realizado de forma integrada garante atendimento rápido e seguro a gestante em área de difícil acesso. Foto: Gliard Santos/Samu

A primeira ocorrência foi registrada na Comunidade Ocidente, às margens do Rio Muru, na zona rural do município de Tarauacá. Uma gestante de quatro meses foi vítima de picada de jararaca, situação considerada de alto risco para a mãe e o feto. Diante da gravidade do quadro e da dificuldade de acesso à localidade, foi mobilizada uma aeronave com base em Cruzeiro do Sul, garantindo rapidez no atendimento e ampliando significativamente as chances de sobrevivência.

O resgate entrou para a história da região por se tratar da primeira remoção aérea de um paciente em uma ocorrência desse tipo naquela comunidade.

Para o comandante de aeronaves Nayck de Souza, a operação ilustra os desafios enfrentados diariamente na Amazônia.
“Atuamos em uma região de vasta extensão de floresta, o que exige planejamento rigoroso e elevada capacidade técnica das equipes envolvidas”, destacou.

Entre a mata e a urgência, equipes integradas atuam no resgate aeromédico para salvar vidas. Foto: Gliard Santos/Samu

Segunda ocorrência

A segunda operação foi realizada na Comunidade Continuação, também em área de difícil acesso. A equipe foi acionada para atender uma gestante que havia sofrido uma queda cerca de um dia antes, apresentando sangramento, febre alta, dor intensa e ausência de movimentos fetais, com suspeita de óbito fetal.

O cenário exigiu resposta imediata e atuação integrada entre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Corpo de Bombeiros. Devido às condições de acesso, restritas ao deslocamento fluvial, e à complexidade do quadro clínico, o atendimento se estendeu por mais de cinco horas.

O primeiro-tenente bombeiro Rosenildo Pires, subcomandante do 4º Batalhão de Educação, Proteção e Combate a Incêndio Florestal (BEPCIF), destacou o papel decisivo da integração entre as equipes.

“Após horas de navegação, conseguimos localizar a paciente, realizar a transferência com segurança e garantir o transporte até o ponto onde a ambulância já aguardava. Mesmo diante de condições climáticas adversas, mantivemos o monitoramento contínuo da gestante, assegurando que ela chegasse em segurança à unidade de referência”, afirmou.

Após o atendimento pré-hospitalar e a estabilização inicial, a paciente foi encaminhada à Maternidade de Cruzeiro do Sul, onde permaneceu sob cuidados especializados para a realização dos procedimentos necessários e a continuidade do tratamento.

Atendimento especializado e desafios da região

A qualidade da assistência ainda no local foi considerada fundamental para o sucesso das operações. Segundo o gerente de enfermagem Giliard Santos, a avaliação primária e a estabilização precoce fazem toda a diferença em resgates desse tipo.

“A estabilização ainda no local da ocorrência é decisiva para a segurança durante o transporte, assim como a administração da terapia medicamentosa e a avaliação clínica contínua. O contato prévio com a unidade de referência é essencial para garantir a continuidade e a qualidade do atendimento”, explicou.

As operações também refletem os investimentos estratégicos do governo do Acre para ampliar o acesso à saúde nas regiões mais isoladas. O secretário de Estado de Saúde, Pedro Pascoal, ressaltou que a realidade geográfica do estado exige estrutura adequada, planejamento e decisões técnicas rigorosas.

“Atuamos em uma região de floresta extensa, com escassez de referências visuais e limitação de pontos de apoio operacional. Atualmente, o Estado conta com apenas três locais de abastecimento de aeronaves: Rio Branco, Feijó e Cruzeiro do Sul”, destacou.

Com foco na vida e na segurança das comunidades, secretário Pedro Pascoal apoia operações de resgate e atendimento rápido às áreas mais afastadas do Acre. Foto: Izabelle/Sesacre

Segundo o gestor, as condições climáticas impõem desafios adicionais às missões aéreas.
“Chuvas intensas e períodos de queimadas reduzem significativamente a visibilidade. Por isso, a liberação do uso da aeronave ocorre de forma integrada com o Samu, após avaliação criteriosa da gravidade da ocorrência pelos médicos reguladores”, concluiu.