Aeronaves Não Tripuladas na Segurança Pública: a Experiência da PMSC e o Futuro da Aviação Policial
02 de fevereiro de 2026
5min de leitura
A aviação de segurança pública brasileira atravessa um momento de inflexão. Ao lado de helicópteros e aviões — meios consagrados e indispensáveis — cresce de forma acelerada o emprego das Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARP/RPAS), popularmente conhecidas como drones. Mais do que uma tendência tecnológica, trata-se de uma mudança estrutural na forma de observar, decidir e agir em operações policiais, de resgate e de defesa civil.
Essa transformação foi apresentada de forma direta pelo Capitão da Polícia Militar de Santa Catarina, Felipe Santos Silva, durante sua palestra no ENAVSEG 2025, o maior evento de aviação de segurança pública do país. Antigo Chefe da Coordenadoria Técnica de Aeronaves Remotamente Pilotadas da PMSC, piloto remoto licenciado pela ANAC, o oficial compartilhou não apenas números e projetos, mas a trajetória real — com erros, resistências e acertos — da consolidação dos drones como ferramenta estratégica na Polícia Militar catarinense.
Assista ao vídeo da palestra no final deste artigo.
Do improviso à doutrina: como os drones chegaram à PMSC
A história da otimização das aeronaves não tripuladas em Santa Catarina não começou em batalhões de aviação, mas na Polícia Militar Ambiental, por volta de 2015. Uma guarnição que apresentava produtividade muito superior às demais revelou que utilizava drones para medições em infrações ambientais, substituindo métodos tradicionais como GPS manuais e teodolitos.
A constatação levou à primeira aquisição institucional de drones pela PMSC, ainda de forma embrionária, com aeronaves do tipo Phantom. Entretanto, a ausência de treinamento, regulamentação interna e respaldo institucional gerou um efeito paradoxal: muitos policiais evitavam usar os equipamentos por receio de responsabilização administrativa em caso de acidentes ou danos ao material.
A resposta inicial foi a criação do primeiro curso de operação de RPAS em 2017, ainda restrito à Polícia Militar Ambiental. Até então, não havia participação da aviação institucional — os chamados “macacões” — nesse processo.
Quando o drone virou “brinquedo” — e o problema caiu no colo da aviação
Com o avanço da tecnologia e o discurso institucional de que “o drone seria o futuro da segurança pública”, surgiu a ideia de equipar viaturas com RPAS para atendimento de ocorrências e grandes eventos. No entanto, a expansão ocorreu sem doutrina, sem procedimentos operacionais padronizados e sem integração com o batalhão de aviação.
A solução encontrada pela instituição foi simples — e comum no meio militar: “isso voa, então é coisa da aviação”. A responsabilidade doutrinária foi transferida ao batalhão aéreo, mesmo sem pilotos treinados, manuais, regulamentos ou estrutura mínima.
O resultado foi previsível: os drones passaram a ser vistos como “brinquedos”, sem o mesmo prestígio das aeronaves tripuladas que custam dezenas de milhões de reais. Coube, então, aos oficiais mais modernos desenvolver toda a atividade praticamente do zero, enfrentando resistência cultural, escassez de recursos e ausência de apoio estratégico.
Formar em massa não é capacitar: os limites do ensino compulsório
Na tentativa de massificar o uso de drones, a PMSC inseriu a disciplina de RPAS nos cursos de formação. Entre 2020 e 2021, cerca de mil policiais foram “formados” como pilotos remotos. Contudo, poucos permaneciam operando efetivamente.
O Capitão Felipe foi direto ao diagnosticar o problema: formar não é capacitar! O aluno do curso básico está focado em sobreviver à formação, não em desenvolver proficiência técnica em uma nova ferramenta.
Sem incentivo, sem tempo para treinamento e sem apoio dos comandos locais, muitos drones ficaram inoperantes — e muitos operadores deixaram de voar.
A virada de chave: voluntariado, capacitação e guerra na Ucrânia
A verdadeira mudança começou em 2022. De um lado, a experiência acumulada dentro da própria corporação; de outro, um fator externo decisivo: o uso massivo de drones no conflito da Ucrânia, demonstrando ao mundo — inclusive aos mais céticos — que RPAS não são brinquedos, mas armas estratégicas, sensores avançados e multiplicadores de força.
A partir daí, a PMSC adotou uma nova lógica: ✔ apenas voluntários ✔ capacitação descentralizada ✔ treinamento contínuo ✔ foco em segurança operacional
Em 2023 e 2024, a Polícia Militar de Santa Catarina realizou mais de 40 edições de treinamentos, percorrendo todo o estado e capacitando não apenas PMs, mas também Defesa Civil, PRF, Guardas Municipais, Polícia Científica e Polícia Penal.
Números que mostram maturidade operacional
Hoje, a PMSC apresenta números que a colocam como referência nacional em RPAS na segurança pública:
2.314 policiais habilitados
1.114 operadores ativos no SARPAS,
representando cerca de 24% do efetivo da corporação;
310 aeronaves cadastradas;
mais de 1.800 operações registradas apenas em 2025 (número que não reflete a totalidade dos voos realizados).
Esses dados demonstram que o drone deixou de ser acessório e passou a integrar o núcleo da atividade operacional.
Drones e helicópteros: concorrência ou complementaridade?
Um dos pontos centrais da palestra foi a defesa firme de que aeronaves não tripuladas não substituem a aviação tripulada. Elas complementam.
Drones ampliam a consciência situacional, reduzem riscos às guarnições, aceleram buscas, permitem vigilância persistente e cobrem áreas extensas a baixo custo. Helicópteros continuam insubstituíveis no transporte de tropa, resgates complexos, infiltrações, extrações e salvamentos aeromédicos.
O futuro, segundo o capitão Felipe, é a operação integrada, coordenada e segura entre meios tripulados e não tripulados.
Gargalos regulatórios e o desafio do futuro
Apesar dos avanços, permanecem entraves importantes:
regulamentação insuficiente para operações acima de 400 pés;
dificuldade de emissão de NOTAM para missões emergenciais;
ausência de doutrina clara para operações conjuntas entre drones e aeronaves tripuladas;
falta de protagonismo institucional junto à ANAC e ao DECEA para adequar normas à realidade da segurança pública.
Ao mesmo tempo, projetos inovadores já estão em curso, como o emprego de drones automatizados despachados diretamente pelo COPOM, inspirado em modelos internacionais como o de Chula Vista (EUA), com uso de inteligência artificial, aprendizado de máquina e integração com sistemas de reconhecimento.
Conclusão: o futuro da aviação de segurança pública é integrado
A palestra do Capitão Felipe Santos Silva foi menos uma aula técnica e mais um chamado à consciência da comunidade aeronáutica de segurança pública:
Drones não são brinquedos.
Não são ameaça à aviação tripulada.
São ferramentas estratégicas que salvam vidas — inclusive as dos próprios aviadores.
O futuro da aviação de segurança pública não é “tripulada ou não tripulada”. É tripulada e não tripulada, juntas, integradas e complementares.
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