A evolução da aviação de segurança pública no Brasil passa, necessariamente, por um eixo central: padronização de processos, integração entre áreas e gestão orientada à segurança e à eficiência. Esses pilares foram apresentados de forma clara, prática e profundamente embasada na experiência operacional durante a palestra ministrada por Marcus Vinícius Baracho de Sousa, piloto policial de helicóptero, instrutor de voo e atual Coordenador de Boas Práticas da Associação Brasileira de Operações Aeromédicas (ABOA).

Assista ao vídeo da palestra no final deste artigo.

Mais do que apresentar um documento técnico, a palestra trouxe uma reflexão madura sobre como organizações aeromédicas — públicas e privadas — podem evoluir a partir do mapeamento consciente daquilo que realmente fazem, transformando experiência individual em conhecimento institucional.


ABOA: uma associação para somar esforços e salvar vidas

Criada em 2018, a Associação Brasileira de Operações Aeromédicas (ABOA) é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, fundamentada no Código Civil Brasileiro. Seu propósito é inequívoco: contribuir para o aprimoramento do setor aeromédico brasileiro, público e privado, com foco exclusivo no salvamento de vidas.

A associação não disputa espaço institucional, não comercializa produtos e não interfere na autonomia dos serviços. Atua como elemento integrador, reunindo profissionais da saúde, da aviação e da gestão pública para produzir conhecimento técnico de domínio público.

Segundo o palestrante, a complexidade do setor aeromédico exige diálogo permanente com múltiplos atores: Ministério da Saúde, ANVISA, ANAC, SUS e órgãos estaduais e municipais. Nesse contexto, a ABOA já participa de processos regulatórios, inclusive da atualização da normatização que trata do atendimento pré-hospitalar no Brasil.


O Manual de Boas Práticas Aeromédicas: mais que um manual

Um dos pontos centrais da palestra foi a apresentação do Manual de Boas Práticas do Serviço Aeromédico, atualmente em sua segunda edição, lançada durante o Congresso Aeromédico de Vitória (julho).

O palestrante foi enfático ao esclarecer: não se trata de “mais um manual”, mas de uma ferramenta estratégica de gestão, segurança operacional e desenvolvimento organizacional.

Principais características do manual:

  • Conteúdo atualizado e alinhado às normas vigentes;
  • Fundamentação técnica baseada em literatura científica, legislação e publicações oficiais;
  • 7 processos e 47 procedimentos operacionais;
  • Elaboração coletiva por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, pilotos e mecânicos, de todas as regiões do país;
  • Procedimentos construídos em duplas ou trios multidisciplinares, sempre com referências bibliográficas obrigatórias;
  • Revisão anual e possibilidade permanente de atualização colaborativa;
  • Domínio público, gratuito e com proibição expressa de comercialização.

O manual está disponível no site da Associação Brasileira de Operações Aeromédicas (ABOA) e, futuramente, deverá ser convertido em aplicativo, facilitando o acesso rápido a procedimentos durante operações reais.


Padronizar não é engessar: é oferecer um caminho

Um conceito repetido ao longo da palestra foi a ideia de que o manual não impõe trilhos, mas propõe trilhas. Ou seja, não cria regras rígidas e inflexíveis, mas oferece caminhos seguros, adaptáveis às realidades regionais, logísticas e operacionais de cada organização.

Exemplos práticos apresentados mostraram que procedimentos foram construídos considerando realidades extremas, como operações na Amazônia, transporte improvisado de recém-nascidos e resgates em áreas sem infraestrutura básica. Essa diversidade reforça que excelência não significa uniformidade absoluta, mas coerência técnica e segurança.


Mapear processos para entender o que realmente se faz

Um dos momentos mais relevantes da palestra foi a reflexão sobre processos produtivos. Ao mapear o que uma unidade aeromédica realmente faz, surgem respostas fundamentais:

  • Quais tipos de missão executamos?
  • O que fazemos bem?
  • O que não conseguimos fazer?
  • De quais equipamentos realmente precisamos?
  • Que tipo de profissional é essencial para nossa realidade?

O palestrante relembrou experiências pessoais, incluindo acidentes aeronáuticos nos anos 2000, em que relatórios apontaram a ausência de procedimentos escritos como fator crítico. A partir dessas lições, a padronização deixou de ser opcional e passou a ser ferramenta de segurança operacional.


Boas práticas como apoio à decisão e à segurança operacional

O manual também atua como suporte aos processos decisórios, tanto estratégicos quanto operacionais. Ele ajuda comandantes e gestores a:

  • decidir sobre aquisição de aeronaves e equipamentos;
  • evitar compras desnecessárias ou incompatíveis com a missão;
  • alinhar expectativas institucionais;
  • reduzir decisões baseadas em “achismo” ou audácia individual.

No nível operacional, procedimentos bem definidos facilitam decisões críticas como pousar ou não pousar, prosseguir ou abortar uma missão, empregar ou não determinado recurso, sempre com base em critérios previamente discutidos e aceitos pela organização.


Integração de pessoas: todos fazem a aeronave voar

Outro ponto marcante foi a valorização do fator humano em todos os níveis. A palestra destacou que segurança e eficiência não dependem apenas de pilotos e médicos, mas também de quem atua no apoio, na limpeza, na logística e na gestão.

O exemplo simbólico da funcionária da limpeza que evitava riscos no hangar ilustra bem a filosofia defendida: todos fazem parte do sistema aeromédico e todos contribuem para salvar vidas.


Conclusão: preparar-se é mais importante que vencer

Encerrando a palestra, Baracho citou Bernardinho: “A vontade de se preparar deve ser maior que a vontade de vencer.”

O Manual de Boas Práticas da ABOA não é um fim em si mesmo, mas um instrumento de preparação contínua, capaz de elevar o nível da aviação aeromédica brasileira — especialmente no setor público, onde a responsabilidade sobre vidas e recursos é ainda maior.

Trata-se de um convite aberto à comunidade aeronáutica: ler, criticar, melhorar e compartilhar, sempre com o mesmo objetivo final — salvar mais vidas, com mais segurança e melhor gestão.