O perigo do “Brownout” em resgate aeromédico

ALEX MENA BARRETO

De todas as missões previstas como de Aviação de Segurança Pública, talvez a que envolva os maiores riscos de acidente, certamente, é o resgate aeromédico.

A impossibilidade de prever certas variáveis durante o planejamento do voo é uma das maiores dificuldades para qualquer piloto, e que influi decisivamente em uma análise de gerenciamento de risco da operação.

Apenas para exemplificar, as variáveis refentes ao fatores meio e missão, podem ser:

→ Condições meterológicas específicas do local do pouso desconhecidas;
→ Local de pouso não homologado e possivelmente desconhecido pelo piloto;
→ Quase certeza de pouso em uma área restrita;
→ Tempo exíguo para planejamento da missão, e sua consequente pressão;
→ Pouca margem para erros e atrasos na operação;
→ Possibilidade de operação em condições marginais de voo;
→ Presença de obstáculos, como: gruas, monumentos, postes, fios, telhas soltas, toldos, arbustos, árvores, tocos, pedras, lixo, bancas de jornal, estabelecimentos comerciais (vidraçarias, restaurantes, etc), feira livre, obras, etc;
→ Presença de transeuntes, automóveis, caminhões, ônibus, etc;
→ Presença de animais, como: cães e cavalos;
→ O local pode ser em declive ou aclive, fato de dificil observação no momento da avalição do local de pouso;
→ Operação de pouso e decolagem predominantemente dentro da curva do “homem morto” (altura vs velocidade);

Analisando somente essas caracterísiticas da missão de resgate aeromédico, conclui-se que além da habilidade do piloto, vai estar à prova, principalmente, as suas decisões e seus julgamentos durante o voo em prol da segurança operacional da tripulação, da aeronave e dos terceiros na superfície. Talvez essas últimas, as maiores virtudes de um bom Comandante de Aeronave.

Quanto à segurança operacional, uma das avaliações e decisões mais importantes a serem tomadas é o local de pouso na ocorrência, pois uma avaliação visual da área, estando, inicialmente com a aeronave a 500 pés de altura e na sequência a 300 pés do solo, pode não revelar todas as caraterísticas desejáveis para um pouso seguro.

Uma das características, que não é perfeitamente possivel de ser avaliada, e que não foi citada no rol de possibilidades de erro acima, é a quantidade de poeira que poderá ser levantada durante o pouso, podendo causar o que é conhecido como “brownout”.

Pouso de um helicóptero Chinook do Exército Americano no Afeganistão (Tarin Kot, na província afegã de Uruzgan) em 9 de julho de 2009. (Foto: REUTERS / Tim Wimborne)

Por definição, “brownout” é uma restrição de visibilidade do voo devido à poeira ou areia no ar, causando perda, por parte do piloto, das referências visuais externas necessárias para controlar a aeronave, consequente desorientação espacial, perda da consciência situacional, podendo levar a um acidente.

Como exemplo de “brownout”, podemos citar um acidente em uma decolagem envolvendo uma aeronave AH-1 Cobra americana :

 

Para se ter uma idéia, em recentes operações militares houve mais aeronaves americanas envolvidas em acidentes relacionados a “brownout” do que em  todas as outras ameaças combinadas.

Em um artigo publicado pela revista Helitac, Nick Lappos cita algumas dicas úteis que podem ser aplicadas em missões de resgate aeromédico, visando evitar a ocorrência de “brownout” , sendo praticamente todas antecedidas do temido “se possível”:

→ Sempre levar em conta a possibilidade de ocorrer o “brownout” ao planejar o pouso;
→ Sempre que possível, decole e pouse contra o vento;
→ Se possível, faça sempre uma decolagem e pouso diretos (sem estabelecer o vôo pairado antes);
→ A reserva de potência é importante. Com pouca reserva, as chances de reverter uma manobra ou arremeter ficam comprometidas;
→ Se for possível, reconheça o local com antecedência, para se certificar que tem condições de realizar a decolagem direta e o pouso direto ou corrido (área livre de obstáculos, solo com poucas ondulações, etc);

Fiinalmente, há um ótimo vídeo que ilustra bem esse perigo, ocorrido em uma missão de resgate aeromédico do GRPAe/SP, onde, apesar da avaliação da área de pouso, iniciou-se o processo de “brownout”, houve a reversão da manobra e arremetida do pouso. Na sequência é encontrado um outro local para pouso, claro que uma área aparentemente mais restrita que a anterior, mas sem a presença do elemento terra ou areia. O resgate é realizado e a vítima socorrida. O piloto, pela excelente tomada decisão, obteve sucesso na missão e manteve os riscos da operação devidamente gerenciados e controlados, sempre em prol da segurança operacional.

A operação de resgate aeromédico é, por si só, uma missão arriscada e, portanto, o gerenciamento da missão é fundamental para o seu sucesso, pois como diz o bom e velho ditado : “Um piloto excepcional utiliza-se de seu conhecimento excepcional para evitar fazer uso de suas habilidades excepcionais“.

Bons voos !


Fontes: Definição de ‘brownout’ : Wikipedia  e The Boston Globe

Dica do vídeo, tradução/adaptação do artigo do Nick Lappos : Vootatico.com.br e Helitac Magazine


8 COMENTÁRIOS

  1. MUITO BOA MATÉRIA. MENA.
    ESSA MATÉRIA AUMENTA NOSSO NÍVEL DE PERCEPÇÃO PARA OS LOCAIS DE POUSOS RESTRITOS.
    PARABÉNS.

    ABRAÇOS E FELIZ 2010.

    SUB TEN WILLIAM.(TOP)
    BAT OP AÉREAS CORPO BOMBEIROS MINAS GERAIS.

  2. Se me permitires gostaria de fazer duas observações que acho oportunas para este texto.
    Talvez não seja o procedimento mais correto, porém adoto como princípio para a forma de pousar o pouso direto apenas em praia diminuindo a suspenção de areia que deteriora, além do motor, as pas do rotor de cauda e principal, quanto ao pouso em outros terrenos como o do vídeo demonstrado procuro ficar em um pairado a uma altura que suspenda as partículas de poeira até que diminua a intensidade significativamente para depois efetuar o pouso, pois, considero que em terrenos poeirentos o pouso direto é mais arriscado e com maior possibilidade de “Brownout”.

  3. Importante observar quanto ao tempo da operação em terreno de areia fina (praia por exemplo), pois causa um “efeito de amolar” (desgaste semelhante ao de arear panelas) as pás, principalmente do rotor traseiro, se precisar permanecer girando que seja o mais breve possível.

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