Uma radiografia da Unidade Aérea da Polícia de Los Angeles/EUA

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EXCLUSIVO PILOTO POLICIAL

Conheça um pouco da uma unidade que voa uma média de 50 horas por dia,  Air Support Division – Los Angeles Police Department, na Califórnia/EUA.

Durante o mês de Setembro/12, o site Piloto Policial teve a grata satisfação de visitar uma das mais faladas unidades de aviação policial do mundo: Los Angeles Police Department – Air Support Division e, assim, poder ver e contar um pouco de sua organização e operação.

Para aqueles que conhecem e acompanham a história e a operação dessa unidade aérea, a LAPD Air Support Division realmente voa mais de 18 mil horas por ano e, além disso, mantém no mínimo dois helicópteros voando no horários das 8:00h da manhã até aproximadamente 4:30h da madrugada, sendo que nos finais de semana são três aeronaves. Detalhe: a troca é no ar, três aeronaves voando, decolam mais três aeronaves para as demais retornarem para o descanso.

Se pudéssemos resumir a unidade em apenas uma palavra, ela seria: SIMPLES! Simples não em seu contexto depreciativo, mas em seu contexto de focar sempre na simplicidade dos processos. Apesar do tamanho colossal de sua operação, percebe-se nitidamente uma preocupação em manter-se focada em sua operacionalidade, sem criar muita burocracia ou demanda administrativa para as equipes. Até o lema traduz esse foco na operacionalidade: “The mission is the same, only the vehicle has changed.”

Pode parecer esquisito, mas é exatamente esse o contexto de operação das aeronaves. As equipes saem para efetuar patrulhamento e apoiar as viaturas em terra. Eles apoiam simplesmente todas as ocorrências.

O Departamento de Polícia da cidade de Los Angeles possui um efetivo de quase de 10 mil policiais e mais de 2 mil civis contratados. É responsável pelo patrulhamento de uma área de aproximadamente 1.300 km2, com uma população estimada de cerca de 3,8 milhões de habitantes. Atualmente é o terceiro maior departamento de polícia dos Estados Unidos, atrás apenas do NYPD e Chicago PD.

A LAPD ASD é atualmente a maior unidade aérea policial dos Estados Unidos e foi criada em 1956. Atualmente conta com uma frota de 19 helicópteros, sendo 14 AS350B2 e 5 Bell Jet Ranger, sendo esses últimos para missões secundárias e de treinamento. A unidade conta ainda com uma aeronave de asa fixa KingAir para missões de transporte.

O unidade possui atualmente 34 pilotos e 22 TFO (Tactical Flight Officer), sendo comandada atualmente pelo Captain Willian Sutton, que não é piloto, pois isso não é um requerimento funcional para ocupar tal cargo.

A LAPD ASD tem suas operações centralizadas no teto de um edifício público. Esse “heliponto” mede aproximadamente  180 por 60 metros, e está estrategicamente localizado perto do centro de comercial de Los Angeles. Ele é chamado de “Hooper Memorial Heliport”. Apesar de suas dimensões razoáveis, o heliponto tem uma operação bastante delicada, pois além do pouso/decolagem/estacionamento de cerca de 6 a 10 aeronaves, existe uma grande restrição devido a uma rede de alta tensão, algumas antenas e as edificações de hangar e torre ao redor do pátio de operação.

A LAPD ASD utiliza uma outra instalação no aeroporto de Van Nuys, onde, além de servir de base para a aeronave KingAir, serve como oficina de manutenção do helicópteros.

Toda a manutenção e inspeção dos helicópteros é efetuada pelo próprio efetivo de mecânicos/inspetores contratados pela unidade. Atualmente a unidade conta com 25 mecânicos/inspetores. O gerenciamento da frota é feito diariamente, sendo disponibilizada para as equipes operacionais um simples folha com a ordem de utilização das aeronaves apenas com seus prefixos.

Outro destaque acerca da manutenção é que ela é unificada com outros departamentos. Ou seja, a equipe de manutenção contratada, além de realizar a manutenção dos helicópteros da LAPD, também o fazem para os helicópteros do Fire Department e de outras unidades públicas.

As aeronaves AS350B2 são totalmente equipadas para a atividade policial, com farol de busca Spectrolab SX-16 Nightsun, moving map, sistema de imageamento térmico FLIR 8500, além de uma excelente suite de rádios policiais. As novas aeronaves AS350B2 VEMD também são equipadas com sistema EFIS da Chelton/Cobham, que inclui além das informações de voo e de rota, sistema GPS, sistema de alerta situacional com o terreno e sistema de visão sintética 3D.

Todo o cockpit da aeronave é adaptado para operação com óculos de visão noturna, mas tal equipamento só é utilizado em missões específicas, tendo em vista que a operação da unidade concentra-se mais na cidade de Los Angeles, onde a iluminação acaba inviabilizando a utilização do equipamento.

Duas aeronaves são equipadas com sistema de imageamento Cineflex V14 e sistema de downlink Troll. Tais aeronaves são utilizadas principalmente para as chamadas missões de surveillance, onde a aeronave faz o acompanhamento velado de um determinado “alvo”. Para se ter uma ideia do desempenho do equipamento, o mesmo teria a capacidade de identificar a placa de um veículo de uma altura de 10 mil pés.

As seleções para piloto e TFO são diferenciadas, sendo, inicialmente, requerido para pilotos a licença de piloto privado de helicóptero, e para ambos experiência de serviço operacional. Após cinco anos operando como TFO (Tactical Flight Officer), o policial também está apto a candidatar-se a seleção interna para piloto.

As tripulações são divididas em equipes, que trabalham por escala com 4 turnos de 10 horas por semana. Cada equipe tem dois Sergeants, que além de pilotos, são responsáveis por administrar os assuntos pertinentes a equipe e ao turno de serviço, como necessidade de um apoio diferenciado. Eles dividem as operações em patrulhamento normal (ASTRO – Air Support To Regular Operations) e missões especiais (SFS – Special Flight Section).

Para cada turno de serviço de 10 horas, cada piloto/TFO voa em média 5 horas/dia. Toda a coordenação de horários de voos, tripulação, PAXs e aeronaves é efetuada com o auxílio de um grande quadro branco, que é alterado pelos próprios pilotos conforme as missões vão se desenvolvendo.

A operação da unidade segue o modelo americano, sendo efetuado o patrulhamento somente com o piloto e o TFO. Uma característica interessante é que o patrulhamento/apoio noturno é efetuado com o farol de busca desligado. Como é de se imaginar, o tempo resposta da aeronave para o local da ocorrência é extremamente baixo. Efetuamos o apoio a cerca de seis ocorrências, sendo que o maior tempo indicado pelo sistema de moving map foi de 3 minutos.

Ao chegar ao local de apoio, primeiro verifica-se o perímetro com o auxílio do FLIR e binóculo e somente depois é que o farol de busca é acionado. A razão para tal medida é evitar o alerta antecipado do suspeito.

As operações de patrulhamento são efetuadas normalmente a 700/800 pés AGL, tanto no período diurno quanto noturno. A unidade não determina mínimos meteorológicos e/ou operacionais, sendo utilizado o bom senso da tripulação. Tal fato chamou a atenção e questionando o Sergeant, líder da equipe, acerca disso, respondeu: “Nós somos uma equipe. Eu estou voando junto com meus homens. Conhecemos a família e filhos de todos, somos amigos. Eu sei quem está abusando. Eu apenas falo para eles: você está abusando, pega leve! Na maioria dos casos isso resolve”. Simples!

Apesar disso, existe na unidade uma estrutura de “safety” coordenada por dois Sergeants, que aparenta ser bastante atuante, pois na sua porta havia uma mensagem de alerta situacional com a data do dia da visita (colocar a foto).

Os pilotos efetuam treinamento de emergência/voos de cheques (“check rides”) com seus próprios instrutores a cada três meses e os TFOs são avaliados operacionalmente a cada seis meses.

Existe na unidade uma espécie de Torre de Controle. Em princípio, achei que seria uma espécie de Sala de Rádio ou Sala de Operações, como conhecemos em muitas unidades no Brasil, mas é bem diferente. O local serve apenas para coordenar a movimentação de pouso/decolagem do heliponto, bem como a movimentação de veículos. Existe a escuta de um rádio aeronáutico, onde é efetuada a coordenação das aeronaves, e a escuta de rádios policiais é secundária, apenas alguns de outras unidades policiais e departamentos, como California Highway Patrol. Não há alarmes! As tripulações efetivamente estão em seu horário de descanso. Por que? Simples, eles tem sempre aeronaves voando…

Para finalizar, talvez a resposta do questionamento mais importante. Como o Departamento de Polícia de Los Angeles vê, no aspecto orçamentário, a unidade de suporte aéreo, com suas 18 mil horas de voo anuais ?

Simples, o orçamento da unidade é desvinculado do orçamento do departamento de polícia. A unidade é custeada diretamente pela cidade de Los Angeles. A unidade é subordinada administrativa e operacionalmente ao departamento de polícia, mas com um orçamento completamente independente deste.

Confira as fotos:

 


Nota do autor:

Gostaria enormemente de agradecer a atenção e receptividade dispensada pelo Sergeant/Pilot Jean Salvodon quando de minha visita.

Be safe !


Texto e Fotos: Alex Mena Barreto para o site Piloto Policial.


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12 COMENTÁRIOS

  1. Reportagem maravilhosa. Já admirava o LAPD – FANTÁSTICO.. Tenho certeza que um dia o Serviço Aéreo Policial do Brasil chegará a esse nível. Torço muito por isso.
    Parabéns pela reportagem
    Jorge Safe PPH (AGENTE DE POLÍCIA CIVIL – SC)

  2. Não é só SIMPLICIDADE, é VONTADE de serem PROFISSIONAIS, com a certeza de que seu serviço é ESSENCIAL e guiado pela SENSAÇÃO DE SEGURANÇA que a população de LA certamente tem. Show de otimização de esforços e maximização de resultados quando fala das equipes de manutenção. Parece incrivelmente óbvio e ao mesmo tempo incrivelmente difícil de ser implantado se não quebrarmos barreiras. Pelas minhas contas, o efetivo não deve passar de 60 policiais. INCRÍVEL !!!!

  3. Caro Mena Barreto , parabéns pela reportagem. Se você ficou impressionado com a forma enxuta do LAPD trabalhar a divisão ASD, e que funciona com resultados fantásticos (00:03 de TMR – Tempo Médio de Resposta),. Mas o que me chama a atenção é a diferença entre nós e eles. Não falo de poder financeiro, nem das necessidades locais da LAPD em contraponto as nossas forças de Segurança Pública, falo que lá a FAA não dá palpite e nem se intromete em uma área que a mesma não tem competência. Mas aqui no Brasil infelizmente existe a ANAC a se intrometer em uma área que não conhece e a impor normas restritivas e sem nexo, que fogem ao “bom senso” que sobra no “sergeant” americano, para determinar aquilo que se deve ou não fazer. Infelizmente a ANAC não ajuda, se pelo menos não atrapalhasse já seria um grande favor a SP Aérea.

  4. Parabéns, Mena!!!

    Excelente texto.
    Uma visão realista de como uma das “unidade pioneiras” do serviço no mundo realiza o que parece ser simples, mas nós, como parte da administração de uma Unidade Aérea, sabemos ser não tão simples assim.
    Criamos paradigmas que serão difíceis de ser modificados.
    Uma unidade enxuta, como a que descreveu, só é viável com o investimento pesado em tecnologia e o rompimento de um padrão de operações já arraigado nas operações das unidades brasileiras.

    Quem sabe um dia não cheguemos lá…

    Grande abraço

    Simões

  5. Parabens pelo breve mais excelente raio x de uma unidade policial aérea que talvez seja a mais emblemática no mundo. Embora nao seja a mais antiga unidade de aviação policial em serviço continuo (a de Nova York tem essa primazia), a LAPD ASU sempre esteve ‘a testa na defesa do conceito de policiamento aéreo preventivo e de apoio a unidadesde solo.
    Colhendo os frutos das pesquisas da NASA e Universidade do Sul da Califórnia (projeto Sky Knight) na década de 1960, a unidade aérea da LAPD e’ o maior exemplo da segurança gerada (e sentida) com o uso eficiente do apoio policial aéreo. Sua permanência continua na missão atesta sua importância.
    Esse aporte de horas de voo em cobertura ininterrupta talvez somente seja possível em uma policia com abrangência municipal e do porte econômico de LA (tanto que nao ha’ no mundo outro exemplo equivalente). Contudo, podemos avaliar a eficiência custo x beneficio quando verificamos que, a despeito da população e área, a LAPD possui um número de policiais pequeno quanto comparado aos seus congêneres (americanos).
    Isso mostra de pronto que a maciça presença do apoio aéreo permite ‘a policia de Los Angeles possuir um número menor de viaturas terrestres, pois o apoio imediato e’ sempre (mesmo) garantido pelo apoio aéreo. E fato que já foi constatado também em Sao Paulo e outros Estados brasileiros com larga experiência no voo policial e’ a de que a presença da aeronave policial, além de sua capacidade de visualização e coordenação, também propicia segurança aos policiais no solo. Isso por si so’ paga seus custos.
    Assim, com as dimensões continentais do Brasil e proporção menor de policiais para o número de habitantes mais se mostra necessário o apoio aéreo, tanto sobre o ponto de vista da eficiência operacional quanto da segurança do policial no solo.
    Mais uma vez parabéns pela excelente matéria, que me fez relembra minha visita ‘a LAPD ASU em 1996, quando os mesmos padrões vistos pelo Mena hoje já eram (há muito) praticados.

    Ricardo Gambaroni
    Cmt Policiamento de Área Metropolitana 8 – Região de Osasco
    (15 municipios, população de 3,8 milhões de habitantes – próximo ‘a de Los Angeles e com área equivalente)
    Efetivo Policial de 3700 homens e mulheres (PM), conta com o apoio do GRPAe SP, a cerca de 10 minutos de voo.

  6. Excelente matéria Cap. Observa-se com total clareza o quanto este trabalho de segurança pública é valorizado e reconhecido. Gostaria de saber – se possível – qual o poderio bélico empregado em tal unidade. Obrigado.

    Álvaro
    Trip.Op.
    BRPAe-ARA
    GRPAe-SP

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