Tenente-Coronel CBMCE Emerson Vasconcelos Bastos 

O sucesso em operações aéreas de segurança pública não é apenas um resultado que soma a capacidade técnica dos pilotos e operadores aerotáticos ou do equipamento aéreo de alta tecnologia embarcado. Alcançar o pleno êxito, em cada desafio posto, também depende de uma coordenação precisa e comunicação fluida entre as equipes aéreas e as equipes atuando conjuntamente, em solo, uma sinergia sine qua non na interação efetiva entre os envolvidos na missão.

Helicóptero da PM de São Paulo durante operação contra incêndio. Foto: Sandro Souza

Entretanto, é comum vivenciar inconsistências operacionais, “desentendimentos” ou falhas de comunicação entre essas equipes. Uma das causas subjacentes a esses conflitos pode ser o “efeito de desconhecimento da incompetência” ou, mais conhecido como “efeito Dunning-Kruger”, um viés cognitivo no qual indivíduos com experiência ainda limitada ou conhecimento apenas parcial sobre uma determinada laboração superestimam suas competências, suas habilidades, comprometendo a efetividade da operação.

Operações Aéreas

A tripulação de aeronaves, empregadas em operações de segurança pública, como pilotos e operadores aerotáticos, geralmente é composta por profissionais que tiveram atuação anterior em “funções de solo” em suas respectivas corporações, como policiais militares, policiais civis ou bombeiros militares.

Essa vivência em operações terrestres oferece a esses tripulantes uma compreensão única das dinâmicas e desafios enfrentados “em solo”, o que é essencial para melhorar a coordenação entre as equipes aéreas e terrestres. Com essa experiência prévia, a tripulação consegue se antever às necessidades das equipes de solo, interpretar melhor as situações e colaborar de maneira mais eficiente. Já o inverso não é verdadeiro.

Caso a equipe de solo não tenha noções de operações aéreas de segurança pública ou não tenha tido nenhuma experiência de atuação conjunta com aeronaves, a eficácia da operação síncrona pode ser prejudicada, aumentando as possibilidades de falhas de comunicação e respostas assertivas no teatro de operações, em virtude do “achismo” oriundo de filmes e histórias “hollywoodianas”, distantes da realidade e das limitações operacionais.

Cumpre ainda citar que o exercício de hierarquia funcional ganha relevante papel na definição e estabelecimento dos procedimentos realizados em conjunto entre as equipes do ar e do solo. Daí, ambos os comandos necessitam de um “match” perfeito.

O Efeito Dunning-Kruger nas Equipes de Solo

Nas operações conjuntas entre equipes aéreas e de solo, a falta de compreensão por uma destas (ou mútua) sobre as especificidades de cada função (missão específica) pode ser crítica, levando uma determinada equipe de solo a se sentir apta a tomar decisões ou julgar ações de suas contrapartes no ar.

Em muitas operações, a equipe de solo pode não estar plenamente consciente ou até mesmo com limitada consciência da complexidade envolvida em diversas circunstâncias ocorrentes nas operações aéreas, levando a interpretações equivocadas sobre a capacidade e o papel do apoio aéreo.

O efeito Dunning-Kruger é particularmente prevalente nessas situações, uma vez que indivíduos com inadequada experiência em operações aéreas, de segurança pública, tendem a superestimar suas capacidades, acreditando que podem avaliar ou até mesmo questionar orientações vindas da aeronave.

Essas falhas de julgamento podem gerar conflitos, especialmente quando as instruções da equipe aérea, baseadas em uma visão global da operação, são subestimadas ou ignoradas. Como consequência, as operações ficam comprometidas, aumentando o risco de erros táticos e operacionais. Além disso, a falta de entendimento por parte da tropa de solo sobre a complexidade das operações aéreas pode levar a desconfiança mútua, tornando a coordenação entre equipes ainda mais desafiadora.

As equipes de solo, que muitas vezes não recebem treinamento adequado em operações aéreas, podem falhar ao reconhecer a heterogeneidade dessas missões, subestimando fatores como as limitações operacionais da máquina, condições meteorológicas adversas e a necessidade tática das diversas manobras com seus desdobramentos.

Essa falta (falha) de conhecimento frequentemente resulta em julgamentos equivocados sobre a efetividade do apoio aéreo, levando os integrantes de solo a tomar decisões fundamentadas em informações incompletas ou interpretações incorretas da situação aérea. Além disso, as equipes aéreas podem perceber essa falta de preparo, gerando desconfiança e ampliando os problemas de comunicação.

Importância do Treinamento Integrado

Para mitigar esses efeitos, faz-se necessária a interação teórica através de disciplinas nos cursos de formação inicial e continuada e a prática entre as equipes do solo e do ar por meio de treinamentos simulados, além dos briefings nas operações.

Essa integração tem vários benefícios. Primeiro, melhora a comunicação entre as equipes, uma vez que ambos os lados passam a falar a “mesma língua” operacional, ambas contemplando as funções da outra, em suas considerações. Com isso, reduz-se o risco de equívocos e conflitos operacionais.

Além disso, esse treinamento conjunto amplia a compreensão mútua sobre a complexidade e as limitações de cada função, especialmente no que se refere às condições de voo e limitações operacionais da tripulação e da aeronave.

Ao treinar juntas, as tropas aprendem a valorizar a importância de cada papel no transcurso da operação, o que fortalece a confiança entre os membros e promove um ambiente colaborativo mais eficiente. Essa confiança é essencial para o sucesso de missões conjuntas, uma vez que permite a tomada de decisões mais assertivas e estratégicas, com base em uma visão global da missão.

Conclusão

A integração entre operações aéreas e equipes de solo é vital para o sucesso das missões conjuntas.

O reconhecimento dos efeitos do Dunning-Kruger nas percepções das equipes de ambos os lados pode ser um fator-chave para aumentar a eficiência e a segurança dessas operações. Portanto, reconhecer a existência do efeito Dunning-Kruger e mitigar seus impactos é essencial para fortalecer a colaboração e maximizar a segurança e a eficácia nas operações.

Investir na capacitação e em treinamentos conjuntos, bem como na conscientização sobre as responsabilidades e o papel de cada equipe, pode ajudar a reduzir esses conflitos e otimizar a performance tática operacional, com impactos diretos nos resultados e na efetividade das missões conjuntas.